Floresta de medo
“Floresta de medo” fala-nos da experiência da esquizofrenia na primeira pessoa. A esquizofrenia é uma perturbação mental grave, caracterizada por perda de contacto com a realidade, redução da vontade e da iniciativa, apatia e isolamento social, entre outros. Há dois sintomas muito típicos - os delírios (convicções, com grau de certeza, de algo que não se encontra de acordo com a verdade), que são, frequentemente, centrados na ideia de que alguém persegue a pessoa, provocando medo intenso e um constante estado de vigilância; e as alucinações, que são perceções, por via dos órgãos dos sentidos (mais frequentemente, a audição) de estímulos que não estão presentes. Na esquizofrenia, ouvir vozes que criticam e injuriam a própria pessoa é o mais comum. Nesta letra procuramos descrever a experiência dolorosa de viver com estes sintomas, sobretudo quando, em redor, as vozes (reais) da sociedade são veículo de preconceitos e discriminação.
Ouvi dizer que o mundo me detesta
Ouvi palavras que não se dizem a ninguém
Ouvi de tudo, de frágil a besta
Ouvi-os dizer que sou filho da mãe
Ouvi impropérios e palavras obscenas
Quem mais as escutava?...
Não me responderam, prenderam-me apenas
Longe de quem mais me detestava
Mas o medo que engole é a cave sombria
A floresta negra no centro da cidade
O medo é a rua de volta à casa tão vazia
Cheia das vozes dos que me prendem por caridade
Penso sobre coisas que não sei explicar
Porque tenho o espírito quebrado
E tentam que eu entenda Ordem e Lei
De um mundo do qual me querem afastado
Há um sopro que me roubou a vontade
Ela é dos outros, já não me pertence
Se eu fosse eu, se fosse minha a liberdade
Poderia recuperar a vida que me vence
Mas o medo que engole é a cave de casa
A floresta negra, o último suspiro
Tenho o medo de um pássaro ferido na asa
Forçado a sobrevoar um campo de tiro
Ouvi o tom ensurdecedor
De quatro paredes e uma sala vazia
Mas o pior foi o murmúrio em surdina
Quando saí e escutei o que o mundo dizia
Mas o medo que engole é a cave escura
A floresta negra no centro do meu ser
O medo são as manchas numa alma pura
Que todos insistem em ver.
À Noite no ICNAS (Coimbra), 19 de julho de 2024.