Barriga de Pandora
“Barriga de Pandora” fala-nos da dor da depressão pós-parto, carregada de sentimentos de culpa e vergonha por não cumprir a expectativa socialmente imposta da “mãe perfeita”. Esta é uma experiência de grande sofrimento e solidão para a mãe, afetando entre 10 a 15% das puérperas em todo o mundo.
Toda a noite ele chorou
Até faltar voz e pulmão
Quem ouviu achou que não
Mas toda a noite ela escutou
Desgraçada, em estado de graça
Perguntara "o que será de mim?..."
E as vizinhas diziam assim:
"E com esta, que se passa?
Que tanto o quis e esperou
E agora anda apagada
Há-de ser fraca e mal-amada"
E toda a noite ela chorou
Se fôssemos só nós, tu e eu
Talvez achasse a desmaiada alegria
O mundo diz-me que é meu
O peso de não te amar como devia
Ou talvez não...
Ou talvez não
Toda a noite ela sofreu
Com ele ao peito a dormir
De dor olhou-o, sem sorrir
E sem chorar não adormeceu
Todos partiram sem querer
Ela fecha a porta e não insiste
Cá dentro ninguém julga a face triste
Que ela mostra ao amor que fez nascer
Se fôssemos tu e eu, só nós
Talvez achasse a oculta felicidade
O mundo que te espera é feroz
Diz mentiras da perfeita maternidade
Talvez não...
Ou talvez não
Não chores, meu menino, que acordas a parede
E as lágrimas de mãe também matam a sede.
À Noite no ICNAS (Coimbra), 19 de julho de 2024.