Não sou doente mental

“Não sou doente mental” foi a primeira canção dos Desmente e representa a experiência de ser alvo de preconceito e discriminação por ter o rótulo de uma doença mental e todo o sofrimento que a isso está associado. Ao mesmo tempo, procura transmitir a ideia de que a doença mental tende a ser encarada de uma forma bastante diferente da “doença não mental”, sendo, aos olhos da sociedade, menos legítima e os seus portadores menos merecedores de respeito e consideração. É, assim, um apelo para uma mudança de paradigma relativamente a estes aspetos e um grito pela merecida liberdade, autonomia e dignidade das pessoas com doença mental.

Tenho uma doença mental

Não sou doente mental

 

Tenho uma doença mental

Tenho uma doença monumental

Ainda estou a descobri-la

Já todos sabem lá na vila

 

A mim ninguém ma esclareceu

Os outros conhecem-na melhor do que eu

Explicam-me que sou perigosa

Mas sou só alvo e nunca criminosa…

Com certeza, dela sou culpada

De espírito fraqueza, de estofo não tenho nada

E por isso escondo-me na vergonha

E também não há quem se oponha…

👁Muitas vezes, as pessoas que sofrem de uma doença mental passam a ser vistas unicamente como "doentes mentais", como se essa fosse a sua única característica. Na verdade, essa é a definição de estigma - uma marca ou atributo socialmente saliente que reduz a pessoa de alguém completo para uma identidade reduzida e manchada.
👁As pessoas com doença mental são, geralmente, vistas como violentas e perigosas; no entanto, mais frequentemente são vítimas de atos violentos do que praticantes dos mesmos.

Mas se quem parte uma perna, tem um gesso colocado

E oxigénio daria a quem tem uma pneumonia

Se tem uma apendicite, deve ser operado

Talvez sofrer não seja o meu fado

Se tudo é doença, isto não é só um estado.

Em algumas tarefas, tenho dificuldade

Para a minha família, é a totalidade

Impede-me de recuperar a minha sanidade

E atribui isso à minha falta de vontade

“Levanta-te!”

E quem me dá a mão…?

Eu quero tratar-me, recuperar o meu charme

Voltar a sentir que pertenço à sociedade

Isto não define a minha personalidade

E em redor, todos dizem “não precisas de ajuda

Quem quer mesmo mudar, muda

Só tens é de te esforçar, miúda”

Mas se não dizem ao diabético “larga a insulina”

Nem ao asmático p’ra tentar mais respirar

E a quem tem um cancro que, do mesmo, duvida

Talvez eu também tenha uma saída

No fim disto tudo, só quero ter uma vida.

 

Tenho uma doença mental

Não sou doente mental.

Unidade de Patologia Dual do Hospital Sobral Cid (ULS Coimbra), 22 de dezembro de 2023.