Doidos são os outros
“Doidos são os outros” fala-nos do peso da depressão no género masculino, contrariando a perigosa e errada ideia de que “um homem não chora” e de que tal situação só acontece aos outros - aos fracos, cobardes e preguiçosos outros. Mostra-nos a perspetiva da mãe, da companheira romântica e do próprio homem que sofre e que não sabe como veicular essas emoções, uma vez que “ninguém nos ensinou a falar esta língua estranha” - a língua das emoções e dos afetos. A depressão no homem está associada a várias consequências nefastas e potencialmente fatais, como o consumo de álcool e comportamentos auto-lesivos, como também se encontra representado nesta letra.
Já viste, Tozé, o que o nosso filho diz
Que lhe custa a vida, que já não é capaz
Vai dar comigo em doida, conversa tão infeliz
Mas doidos são os outros – isso o digo ao rapaz
Confesso-me, de costas com a vergonha
Com fé só numa ajuda que não vem
Sou culpado – será culpa, será ronha
Se doidos são os outros, serei eu doido também?
Ninguém nos ensinou a falar esta língua estranha
Chegámos a Babel tão fria e escura
A voz perdeu o caminho.
Vale mais, então, quando o silêncio se entranha
É dos outros a loucura
E o louco fica sozinho.
Não sei que foi que fiz para o merecer
Se tinha outra, se o rejeitei ou ofendi
Diz-me que chora antes de adormecer
Tristes são os outros – e eu já o esqueci
De sol a sol sorrio a quem passa
Sou forte, sou calmo, sou viril e honrado
Limpa o rum e o travesseiro a água da minha desgraça
Que farão os outros loucos se me virem desgraçado?
Ninguém nos ensinou a falar esta língua estranha
Chegámos a Babel tão fria e escura
Não há regresso ao amor.
Sobra tempo e coragem para que alguém os tenha
É dos outros a ternura
E quem fica com a dor?
Era filho de Tozé, era namorado, empregado
Mas se era honrado, embriagado, doido seria?
Como, se doidos são os outros, e os outros dão
À virtude sempre razão e infinita sabedoria?
Tozé tinha um filho muito amado e respeitado
Talvez emigrado? Não o vi mais por aqui…
Dizem os outros, doidos ou não, que o coração
Pedindo perdão, lhe deu descanso de um sufoco vão.
Ninguém nos ensinou a falar esta língua estranha
Chegámos a Babel tão escura e fria
Não há regresso à estrada.
A vida é cofre aberto sem chave ou senha
E nunca mais é dia
Quando ela já está fechada.
IX Encontro Nacional de Internos de Psiquiatria (Aveiro), 20 de outubro de 2022.