Doidos são os outros

“Doidos são os outros” fala-nos do peso da depressão no género masculino, contrariando a perigosa e errada ideia de que “um homem não chora” e de que tal situação só acontece aos outros - aos fracos, cobardes e preguiçosos outros. Mostra-nos a perspetiva da mãe, da companheira romântica e do próprio homem que sofre e que não sabe como veicular essas emoções, uma vez que “ninguém nos ensinou a falar esta língua estranha” - a língua das emoções e dos afetos. A depressão no homem está associada a várias consequências nefastas e potencialmente fatais, como o consumo de álcool e comportamentos auto-lesivos, como também se encontra representado nesta letra.

Já viste, Tozé, o que o nosso filho diz

Que lhe custa a vida, que já não é capaz

Vai dar comigo em doida, conversa tão infeliz

Mas doidos são os outros – isso o digo ao rapaz

 

Confesso-me, de costas com a vergonha

Com fé só numa ajuda que não vem

Sou culpado – será culpa, será ronha

Se doidos são os outros, serei eu doido também?

 

Ninguém nos ensinou a falar esta língua estranha

Chegámos a Babel tão fria e escura

A voz perdeu o caminho.

Vale mais, então, quando o silêncio se entranha

É dos outros a loucura

E o louco fica sozinho.

👁Desde pequenos, não somos ensinados nem incentivados a falar sobre as nossas emoções e sentimentos, sobretudo se estes forem negativos. Isto acontece particularmente com os indivíduos do género masculino. Por isso, quando, enquanto adultos, tentamos falar sobre emoções como tristeza, ansiedade, angústia, sentimos que chegámos à Torre de Babel, onde, de acordo com a narrativa bíblica, todos os homens falavam línguas diferentes, sendo impossível entenderem-se.

Não sei que foi que fiz para o merecer

Se tinha outra, se o rejeitei ou ofendi

Diz-me que chora antes de adormecer

Tristes são os outros – e eu já o esqueci

 

De sol a sol sorrio a quem passa

Sou forte, sou calmo, sou viril e honrado

Limpa o rum e o travesseiro a água da minha desgraça

Que farão os outros loucos se me virem desgraçado?

 

Ninguém nos ensinou a falar esta língua estranha

Chegámos a Babel tão fria e escura

Não há regresso ao amor.

Sobra tempo e coragem para que alguém os tenha

É dos outros a ternura

E quem fica com a dor?

 

Era filho de Tozé, era namorado, empregado

Mas se era honrado, embriagado, doido seria?

Como, se doidos são os outros, e os outros dão

À virtude sempre razão e infinita sabedoria?

Tozé tinha um filho muito amado e respeitado

Talvez emigrado? Não o vi mais por aqui…

Dizem os outros, doidos ou não, que o coração

Pedindo perdão, lhe deu descanso de um sufoco vão.

 

Ninguém nos ensinou a falar esta língua estranha

Chegámos a Babel tão escura e fria

Não há regresso à estrada.

A vida é cofre aberto sem chave ou senha

E nunca mais é dia

Quando ela já está fechada.

👁A consequência mais grave da depressão é o suicídio, mais frequente no homem (e o estigma, a vergonha e as expectativas sociais quanto ao papel de género contribuem para que não chegue sequer a haver procura de ajuda profissional).

IX Encontro Nacional de Internos de Psiquiatria (Aveiro), 20 de outubro de 2022.