Sede
“Sede” fala-nos do quão devastadora pode ser a dependência alcoólica, afetando diversas áreas da vida - como a família, o trabalho, as relações interpessoais e a autoestima, entre muitas outras. Representa também a dificuldade em pedir e aceitar ajuda, o que é ainda mais dificultado, no homem, devido aos papeis de género tradicionais, sendo o consumo de álcool incentivado e normalizado, sobretudo no género masculino, e sendo a procura de ajuda psiquiátrica alvo de preconceito e discriminação. Estes fatores contribuem para a manutenção e agravamento do problema, num círculo vicioso de solidão e destruição gradual do próprio e da sua vida.
Tarde quente, à sombra na esplanada
O dia certo à hora errada
Mais um dia em que não faço mais nada
Olha o Chico, senta aqui
Fala-me um pouco mais de ti
E das aventuras que trazes de lá
Tenho dez chamadas perdidas
Não sei quantas tarefas esquecidas
Mas as geladas não param de chegar
E há uma sede p’ra matar
Tenho anos de experiência, só me falta a paciência
Para ouvi-la e para a aturar
Se ao menos se esquecesse, ou então se percebesse
Que um homem deve rir e nunca chorar!
Uma vez lá se passou, fora de casa me trancou
E, possuída, disse que me ia deixar
Já meu pai me dizia: homem sério tem valentia!
Não precisa de ninguém para andar
Uma vergonha, como assim? Não preciso que tenham pena de mim!
Vou mas é ter com os gajos desanuviar, que há uma sede p’ra matar!
Tenho três filhos à mesa e no fundo bate a certeza
Que esta reunião é tudo menos familiar
Nada do que dizem faz sentido, eu não ando consumido
Só quero que deixem um homem no seu lugar
Cá estou eu, na esplanada sozinho, mesmo o Chico passa de fininho
Comentam que ando com ela queimada e uma cara desconfiada
Dizem p’ra pensar diferente, mas nada o desmente
Esta gente vale nada, eu não valho nada…
Lá peço eu mais uma gelada que há uma sede p’ra matar.
IX Encontro Nacional de Internos de Psiquiatria (Aveiro), 20 de outubro de 2022.