Galeria
Um gostinho de Desmente no estúdio!
Na galeria ao cabo do salão comum
Com janelas pequenas, num banquinho de ripas
Cruzando-a vozes secas e olhar nenhum
Espera Lúcia no seu vestido às tulipas
Pousa nos joelhos mãos que tremem como varas
Mas não a que servia o seu pai quando a punia
Que essa, que se saiba, nunca tremera ou quebrara
Ou não saberia Lúcia de cor a galeria
Nas paredes há retratos de rostos que não conhece
Brilhante pensador, condecorado cientista
O traço nos cabelos é tão real que apetece
Perguntar se alma tão triste já neles pousara a vista
“Galeria” conta a história de Lúcia, uma mulher, professora, que espera para ser chamada à sua consulta de Psiquiatria, sentada num banquinho na galeria, o corredor comprido do hospital. Enverga o seu vestido às tulipas - a coisa mais bonita que sente ter para mostrar -, o mesmo que tapa as marcas de um trauma visível e antigo. Ao sair da galeria, Lúcia irá mentir quanto ao lugar onde esteve, pela vergonha de sofrer discriminação. E, ao final do dia, olha o amanhã, com esperança de que possa ser melhor.
Espera Lúcia no banquinho que alguém a venha chamar
Ao sair irá dizer que esteve noutro lugar
Debaixo das tulipas os artefactos escondidos
Contam as estórias de tantos amores perdidos
Lúcia vai à galeria contar a sua verdade
Porque o mundo a calou em tenra idade
Conheço-a já ao longe pela forma como anda
Do restaurante onde vou, da escola onde ensina
Lúcia, do 4°C, vejo-a às vezes à varanda
A estender as tulipas na luz vespertina
Espera Lúcia no banquinho que alguém a venha chamar
Ao sair irá dizer que esteve noutro lugar
E ninguém adivinha que os seus trajes coloridos
São a coisa mais bonita dos seus anos já vividos
Certa noite, eu não sei, mas quase juro que sorria
Ao sair, discreta, da galeria
Lúcia vai ao 4ºC e à varanda encerra o dia
De olhos num amanhã de alegria.
IX Encontro Nacional de Internos de Psiquiatria (Aveiro), 20 de outubro de 2022.